Quarta-feira, Setembro 14, 2005

Imperfeito

Se sentia a pessoa mais despreparada do mundo. Praticamente tudo o que planejava não dava lá muito certo. Era um estabanado de sentimentos. Trocava seis por meia dúzia, e meia dúzia por um milhão. Tentava ficar longe dos extremos, mas pendia preguiçosamente para um deles. E tentava arrumar isso. E até que conseguia. Olha, mudar as formas de enxergar o mundo e a si mesmo dá um trabaaaaaalho... Quando foi que perdeu o direito de deitar e deixar o mundo seguir sozinho? Buscava consolo em outros, e se enfraquecia por não buscá-lo em si mesmo. A própria palavra busca era no mínimo uma coisa completamente relativa. De fato, só se sentia tranquilo quando não almejava nada. Vida era o seu custo para a tranquilidade. O tempo passava, nada mudava.

Mas de vez em quando algo acontecia. Se permitia encarar. Saía da redoma de vidro. Era convidado a participar do ciclo. E gostava. Ficava maravilhado. Sentia medo e enfrentava. Errava e dava risada. Fracassava e ganhava experiência. Vencia e compartilhava a vitória. Mas, com uma triste constatação, percebia que as trevas de espírito estavam voltando. Tentava arranjar alguma forma de impedir, mas lembre-se, era um estabanado. Então quando percebia que lutar era inútil (pelo menos nesse caso) tentava juntar e se apegar ao máximo de memórias e fatos marcantes possíveis.

E quando as trevas chegaram, parou e pensou: "Vai ser sempre assim?"

Na verdade já sabia a resposta. Era tudo frescura. Buscar a perfeição só serve para tapar os olhos para os bons aspectos. O mundo não é plano. Existem, e sempre existirão, inúmeras barreiras, inconstantes na sua forma e desafio. O porto seguro é uma fuga ineficaz, pelo simples e óbvio fato de ser uma fuga em si. E sabia que a preguiça de novos sentimentos e novas interpretações era a maior de todas as fugas. Então se sentiu envergonhado por ser tão preguiçoso, e por depender tanto dos outros.

Foi uma constatação momentânea, e percebia que em pouco tempo seria preciso fazer novas, afinal, era a própria preguiça que o seduzia a encontrar "verdades" para a vida.

Saiu das trevas, olhou para o mundo e disse: "Me desculpe. Mas deixe-me seguir em frente, por favor."